“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada... É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Esse verso do grande poeta sem dúvida caracteriza os 21 anos sombrios da ditadura militar brasileira, iniciada em 1964. Para alguns, e durante muito tempo foi tratada dessa forma, esse período é denominado “revolução”. Normalmente, uma revolução é feita por grandes massas. Porém, neste caso, a revolução foi feita pela minoria, a elite brasileira, aqueles que detém as riquezas do país desde 1500.
Vamos tentar entender a situação, lembrando um pouco como estava o Brasil e o mundo, naquela época. Nos anos 60, o país ainda vinha embalado por dois grandes agentes motivadores, que até hoje funcionam em terras tupiniquins: o futebol e a economia. A seleção brasileira, em 1958 conquistou o campeonato mundial, na Suécia. O governo de Juscelino Kubistcheck alavancou a economia nacional, trazendo industrias e gerando empregos, sem falar da construção da nova capital federal, Brasília. O sentimento ufanista tomava conta do povo. Mas uma crise se instaurou no governo, após a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros, em 1961, que se agravou ainda mais quando seu vice, João Goulart, assumiu a presidência. Jango, como era conhecido, queria uma maior participação popular nas decisões do governo, e o início da reforma agrária. As elites, formadas por banqueiros, empresários, a Igreja Católica e os militares, não se sentiram a vontade com tais mudanças, que afetariam muito seu modo de vida, e também envolvidos pelo medo comunista instaurado pela Guerra Fria, resolveram se mobilizar contra o governo. A maior manifestação foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, de 19 de março de 1964.
Temendo guerra civil, Jango fugiu para o Uruguai e os militares tomaram o poder em 31 de março de 1964, com o decreto do primeiro Ato Institucional. Está instaurada a ditadura militar no Brasil. Foram cinco os militares que assumiram a presidência: Castello Branco (1964-1967), Costa e Silva (1967-1969), Médici (1969-1974), Geisel (1974-1979) e Figueiredo (1979-1985), sendo que entre o governo de Costa e Silva e Médici, uma Junta Militar assumiu a presidência.
A ditadura, assim como as demais ditaduras latino-americanas, foi financiada pelos Estados Unidos para impedir um avanço das União Soviética e se socialismo que dominava o leste europeu. Tinham conseguido Cuba, mas seria somente isso. Americano não é bobo! A ditadura militar é mais uma prova da submissão brasileira em relação ao poderio econômico norte americano. “E para o Tio Sam? TUDO!!!!” E pro povo brasileiro? Engana-se que pensa em nada. Deu-lhe foi borracha, pau-de-arara, tortura, desaparecimentos até hoje mal explicados, assassinatos, DOPS, entre outras coisinhas. Foram anos de chumbo grosso para um povo que queria apenas uma distribuição de renda e terras justa e igualitária, mal sabia o que era socialismo. A temporada era de “Caça às bruxas”. Guardem suas vassouras subversivas. Escondam-nas atrás das das portas pois a censura chegou, e era estúpida e burra! Portanto não tinha muito critério, pra não dizer nenhum. A ordem era banir tudo o que fosse subversivo, sob a ótica dos analfabetos militares.
Nas artes e na imprensa a repressão era total. Censores proibiam toda e qualquer manifestação que fosse considerada subversiva. Vários jornais foram fechados. Senão fechados, tinham em seus exemplares, no lugar das matérias impróprias segundo a censura, receitas culinárias e poemas de Camões. Os atores da peça “Roda Viva” foram agredidos, e o teatro o espetáculo estava em cartaz foi destruído. No rádio e na televisão, a censura foi igualmente violenta. A novela “Roque Santeiro”, da TV Globo, que apoiava totalmente o regime militar, foi censurada no dia da estréia, depois de vinte capítulos prontos, escritos, e previamente aprovados pelos censores. A trama é de autoria de Dias Gomes, um autor de teatro que encontrou na TV um caminho para sobreviver e tentar manifestar seu pensamento e sua arte, trajetória seguida por outros colegas seus que se tornaram grandes novelistas.
Dentro da trajetória dos militares no poder, a TV Globo tem um capítulo a parte. Inaugurada em 1965, pelo jornalista Roberto Marinho, a emissora nasce com parte do capital ligado ao grupo americano Time-Life, algo ilegal para a época. Foi aberta uma CPI, mas como tudo no Brasil, acabou em pizza. Marinho ficou como único dono da TV Globo. A grande cartada da emissora foi aliar-se aos militares no projeto de integração nacional. Que melhor meio de colocar o povo inteiro, ou quase, pensando da mesma forma, senão por uma rede de televisão? Surge então a Rede Globo de Televisão. Outro fator que também favoreceu a Globo foi o fechamento da Rede Excelsior, que iniciara antes da emissora de Marinho a transmitir em rede. A Excelsior foi fechada após um incêndio suspeito em suas instalações, se afundar em dívidas, e, acima de tudo, se manifestar claramente contra o regime. Muito da estrutura de programação, e a própria grade de programação (dias e horários determinados para as atrações serem exibidas) que a Globo utiliza veio da Excelsior. O Mundo estava em guerra, mas o Brasil era a terra da paz, do samba, do futebol, do carnaval, das novelas, tudo transmitido na telinha da Globo. As emissoras de televisão tinham a função de alienar. É por isso que as novelas e programas de entretenimento (Silvio Santos, na Globo, chegou a ter oito horas ao vivo) eram mais longos, e os telejornais, devidamente censurados, tinham quinze ou trinta minutos no máximo!
O período mais violento do regime foi a partir de 1968 até 1974, o final do governo Médici. A repressão ficou muito mais agressiva, muito mais estúpida. Pensar acabava em prisão ou morte. É dessa época o famoso “Milagre Econômico”, lançado pelo então ministro Delfim Neto. Realizando obras faraônicas, como a Transamazônica e a ponte Rio-Niterói, e emprestando dinheiro no exterior, o Brasil viveu um período de relativo crescimento. Delfim disse a célebre frase: “É preciso fazer primeiro o bolo crescer para depois reparti-lo”. O bolo não cresceu o suficiente para dividir com o povo e, somando isso a crise do petróleo, o país contraiu altas dívidas e aumentou as taxas de juros. Desse bolo só o que cresceu mesmo foi a dor no bolso e na barriga do povo.
Coube então a Geisel iniciar um processo lento e gradual de volta à democracia, que foi concluído no governo de Figueiredo (aquele que preveria seus cavalos ao cheiro do povo), com a anistia e a escolha do primeiro presidente civil, Tancredo Neves, tomando-se todo o cuidado para não ter novamente a ameaça de perda do poder das elites. Um marco importante desse início, que gerou a primeira manifestação da década de 70 contra a ditadura, foi a prisão e assassinato do jornalista Wladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, em 1975. Mas não tinham grandes temores. Mesmo com a manifestação popular em pró das eleições diretas, conhecidas como “Diretas Já”, não houve um temor por parte da elite, sendo que o regime já estava desgastado e, economicamente, fez grandes estragos como uma grande recessão e alta inflação. A paulada na população tinha sido forte o suficiente, atingindo especialmente o intelecto brasileiro. Não só pelo exílio de pensadores, artistas, políticos e importantes figuras formadoras de opinião, mas também pelo estrago que foi feito na educação das gerações que nasceram nesta época, e por conseqüência seus herdeiros.
Levando-se em conta a proclamação da República, e a ditadura de Getúlio Vargas, somos, portanto, uma democracia em formação, muito jovem, e que convive ainda muito de perto com os resquícios do regime militar, com suas conseqüências e com seus problemas a resolver, especialmente na educação. Também tá na hora do povo despertar o sentimento de luta coletiva, e brigar mais pelos seus direitos, como nos anos 60. A pancada da ditadura foi tão forte que a impressão que tive, refletindo sobre o início da década de 90, é que o povo tinha medo de ir para as ruas, e ainda sinto um pouco isso. A constituição promulgada em 1988, três anos após o fim do regime, ainda pensava no Brasil da ditadura, não numa nação democrática. A intenção de Ulisses Guimarães foi ótima, mas está causando uma série de problemas nos dias de hoje. É preciso rever uma série de pontos, e também é preciso fazer despertar a garra de lutar pelos seus direitos como nação, todos juntos, pelo bem comum. Somente unido, o povo terá a seu favor um país justo e igualitário.
Danilo Nunes de Freitas, jornalismo
O Proprietário da Marmita Socialista.
Fonte: http://www.suapesquisa.com/ditadura/
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4 comentários:
Eu, na condição de pseudo-editora, devo dizer que agora sim tá show!! Mas, devo dizer também que você poderia (sugestion time!) fazer um quadrinho à parte, explicando os AIs. Tipo Formas repressoras constitucionais (título), AI1 bla bla bla. AI2 bla bla bla, com explicações breves e tal. Mas eu adorei o tom e a mão do texto.
Paramimo texto tah bom tb ^^...Mas o q eu mais gostei foi o " detentor da marmita socialista "...hauhauahuahuah
Nha eu adorei...
Só me deu medo de fazer o meu kkkkkkkkk...
Sobre você falar do título "revolução", e propor a revolução das maiorias, gostaria de fazer um adendo: o menino Florestan Fernandes em "O que é revolução?" caracteriza o golpe de 64 como contra-revolução, um termo adotado pela esquerda para justificar seus os seus argumentos, sugiro que você dê uma pequena olhada neste texto, tem na biblioteca. Você tem uma cópia do Glaubinho "A idade da Terra" que é bem na linha do que você disse.
P.S. Este foi um elogio, eu gostei.
Beijão,
My (nota-se a origem ideológica da marmita).
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