
“[...]
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
[...]”
Tom Jobim, Wave
A HISTÓRIA
Sempre que alguém fala sobre Bossa Nova, uma imagem que fica bem clara na imaginação da maioria dos brasileiros é uma belíssima praia do Rio de Janeiro, com uma moça bem curvilínea e bronzeada caminhando na areia, embalada por uma música qualquer de Tom e Vinícius ou João Gilberto.
Um outro cenário também se passa no Rio de Janeiro, quando falamos de Bossa Nova; uma abertura bacana, que mostra o Cristo, o Corcovado e o Bondinho do Pão de Açúcar. Depois dessa abertura, começa uma novela do Manoel Carlos, que se passa nos bairros de classe-média alta do Rio, onde uma certa Helena vai viver um problema qualquer e, no final, ser feliz para toda vida.
Ainda assim dizemos que Bossa Nova não é popular; que no senso comum, define massificado. Não fazemos questão nenhuma de esconder que consideramos a Bossa Nova a música da elite brasileira. Assim sempre foi, desde que surgiu, no final da década de 1950.
Quem diria que reuniões casuais de poetas e músicos influentes na sociedade da época, faria com que surgisse o mais despretensioso e mundialmente aclamado estilo musical brasileiro. Influenciada pelo jazz e pelo samba, a Bossa Nova foi uma espécie de movimento musical universitário, uma vez que suas primeiras apresentações foram nas faculdades, que, aos poucos, foi tomando conta do circuito de bares de Copacabana.
Mas, até então, as novas bossas que esses jovens compositores criavam não tinham um nome propriamente dito. Foi no Colégio Israelita-Brasileiro, que num dos samba sessions (os shows desse novo samba), que o nome Bossa Nova surgiu na lousa, escrito sabe-se lá por quem. Foi assim então, que os sambas modernos passaram a ter nome.
O marco histórico de surgimento da Bossa Nova se dá em agosto de 1958, e o movimento fica então associado a uma época de desenvolvimento urbano e social – o governo de Juscelino Kubitschek. O estopim da Bossa Nova é um compacto de João Gilberto, que continha as músicas Chega de saudade e Bim Bom.
As características mais marcantes do ritmo são as letras leves e descomprometidas, e o jeito de cantar, um tanto quanto falado, declamado, que de certa forma eliminava a questão de “saber cantar” ou de “ter uma grande voz”. Para cantar Bossa Nova basta, então, acompanhar a melodia.
O reconhecimento mundial veio em 1962, quando houve um concerto no Carnegie Hall, de Nova Iorque. Além disso, as regravações internacionais de músicas como Garota de Ipanema, Desafinado, Samba de uma nota só e Corcovado por celebridades da música mundial como Sara Vaughan, Stan Getz e, até mesmo Frank Sinatra.
Em meados da década de 1960, alguns músicos como Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle, apoiados pelos Populares de Cultura da UNE, apresentaram uma cisão ideológica ao movimento, com uma visão mais nacionalista, passou então a criticar a influência do jazz na Bossa Nova. A proposta, então, foi a reaproximação com os sambistas dos morros, como Zé Ketti. Pilares do estilo, como Carlos Lyra e Nara Leão, aderiram ao movimento, juntando à bossa o samba de Cartola e Nelson Cavaquinho, e o baião e o xote do nordeste, como João do Valle. Nesse período de releitura, Vinicius de Moraes e Baden Pawell lançaram, em 1966, o LP Afro-sambas.
“Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
[...]”
Chico Buarque – A Banda
O LEGADO À MPB
O maior expoente do que passa a ser chamado então de “fim do movimento Bossa Nova”, se dá quando em 1965, Vinicius de Moraes compõe a música Arrastão, que foi interpretada por Elis Regina, no I Festival de Música Popular Brasileira (da extinta TV Excelsior). A Bossa Nova era colocada em xeque por um estilo que passa a ser mais abrangente, e com diferentes tendências, a MPB.
A MPB nasce com muitos artistas da segunda geração da Bossa Nova, como Geraldo Vandré, Edu Lobo e Chico Buarque de Holanda, que eram figurinhas carimbadas dos festivais de música popular. Porém os trabalhos desses artistas já não possuíam grandes resquícios da Bossa Nova. As músicas Disparado (de Geraldo Vandré) e A banda (Chico Buarque), podem ser consideradas como o rompimento da Bossa Nova.
“[...]É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você
[...]”
Só tinha de ser com você – Tom Jobim
E O QUE TEM PRA HOJE?
Atualmente, o que se ouve sobre Bossa Nova não é pouco; mas não é claro, de toda forma. Muitos preferem manter a Bossa Nova enterrada nos anos 60; entretanto, numa análise fria, encontramos muita veiculação do estilo na mídia.
Um exemplo claro e que já foi dado, são as novelas assinadas por Manoel Carlos. Apesar da vida inimaginável onde tudo dá certo, onde um Rio de Janeiro não tem favela nenhuma, e o menos favorecido (financeiramente) mora no Leblon (bairro nobre do Rio), mas as trilhas sonoras das novelas são sempre focadas na Bossa Nova e no Jazz.
Também na televisão, o canal de tevê por assinatura Cartoon Network, tem um horário especial de desenhos voltado para o público adulto, o mundialmente famoso [adult swim]. Dentre os desenhos apresentados no horário, tem um chamado “Laboratório Submarino 2021”, cuja vinheta mais veiculada são duas das personagens do desenho (dois tripulantes) dublando “As águas de março”, interpretada por Tom Jobim e Elis Regina.
Na música, artistas da chamada “Nova MPB” como Fernanda Porto e Vanessa da Mata, procuram misturar releituras de canções com “Só tinha de ser com você”, misturando com as batidas eletrônicas, dando ao estilo uma nova cara.
Também na nova música brasileira, temos artistas que mantém um formato mais “clássico” do estilo, como Bebel Gilberto, Maria Rita, Céu, entre tantos outros.
Já no cenário mundial, temos Everthing But The Girl, Buena Vista Social Club, Bitter:Sweet, Matt Bianco, Rubens Gonzáles dentre tantos outros que são influenciados pelo estilo atualmente.
GRANDES NOMES
Alaíde Costa
Antonio Carlos Jobim
Astrud Gilberto
Baden Powell
Carlos Lyra
Claudette Soares
Danilo Caymmi
Elizeth Cardoso
Johnny Alf
João Donato
João Gilberto
Luís Bonfá
Luiz Eça
Marcos Valle
Maysa
Miúcha
Nara Leão
Os Cariocas
Oscar Castro Neves
Roberto Menescal
Ronaldo Bôscoli
Sergio Mendes
Sylvia Telles
Stan Getz
Toquinho
Vinicius de Moraes
Laís Alves Silva, cursa jornalismo e consome diariamente altas doses de música, cafeína e absurdos que o povo fala.
4 comentários:
Uffa..consegui ler tudooo...bom...
Gostei muito do texto,mas achei que você bateu muito na tecla do Manoel Carlos,uma citação só acho que já bastava...mas como você é a editora chefe....=/...hahauahauh...sei lá né...hehe
Pra que serve a bossa nova? Espero que não tenha nada pessoal entre vocês, mas se tiver, a defenda um pouquinho das eculachações que fiz no meu artigo. E não fique chateada com mymzynha.
Beijão,
My
Achei extremamente completo. Caso você não queira defender de maneira expressiva tá 100%. Mas se você quiser defender você pode puxar uma sardinha para o nosso querido ex-diplomata, o branco mais negro do Brasil Vinicius de Moraes.
Pelo conteúdo da história a bossa nova se auto-defende, mas no começo do artigo vc expressou com letras garrafais q acha que bossa nova é de elite.Só um toque para confirmar a intencionalidade de seu texto. Eu achei incrível!!! Beijãozão,
MY
Na verdade, My, meu ponto é que a gente conhece muito mais a bossa nova do que acha que conhece. A questão da elite foi só para mostrar isso mesmo.
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